A HISTORIA DE LAMBARI
A Fundação da Campanha, sua influência e expansão
Nos fins do século XVII, mais precisamente em 02 de outubro de 1737, a mando do governador da capitania de Minas Gerais, D. Martinho de Mendonça de Pina e Proença, foi fundada a vila de São Cipriano pelo ouvidor da comarca do Rio das Mortes ( sétimo ouvidor de São João d'El Rey) , Cipriano José da Rocha, que depois, arraial de São Cipriano, Campanha do Rio Verde, Campanha da Princesa, tornou-se o que, hoje chamamos de Município da Campanha. Naquela época, a citada comarca ( do Rio das Mortes ) estendia-se ate a margem direita do Rio Verde onde já floresciam as vilas de Baependi e Pouso Alto. Com a expansão das terras campanhenses, os limites da comarca do Rio das Mortes passaram além da margem esquerda do Rio Verde, foram além do Vale do Rio Sapucaí,, subiram a Serra da Mantiqueira, indo até as cabeceiras do Rio Pardo e Jaguari, ou seja, as terras da Campanha iam ate o atual Estado de São Paulo. Quinze anos depois de fundado o arraial já se tornava freguesia, em 1752, e vários arraiais e povoações haviam surgido ao longo do seu imenso território. A vila da Campanha fundada em 1798, influiria na vida religiosa, social, política e cultural de todos esses povoados, entre os quais podemos citar Ouro Fino, Santa Rita do Sapucaí, Pouso Alegre, Itajubá, Silvianopolis, Varginha, Três Corações, Conceição do Rio Verde, Cambuquira, São Gonçalo do Sapucaí, Jesuânia e Lambari. O rio Lambari serpenteia descendo a serra do Pouso Frio, próximo a Cristina, segue por entre as serras do Bom Jardim e da Bocaiúva a leste de Jesuania e Lambari.Circula entre as Serras do Tapajós e do Cigano, ao sul de Cambuquira, e desviando-se para o nordeste, cai nas águas do rio verde. Apenas dois afluentes o atingem neste trajeto: O rio Mumbuca,a alguns quilômetros do Matadouro e o Ribeirão do Melo, na serra da Bocaina. Conforme foi visto, Lambari teve na origem do seu desenvolvimento, assim como as demais localidades da região, as terras da Campanha foi denominada: Inicialmente, Arraial de São Cipriano. Em seguida, Freguesia de Santo Antonio do Vale da Piedade da Campanha do Rio Verde. Depois, simplesmente, Campanha do Rio Verde. Depois, de Campanha da Princesa. No Brasil-Imperio, a 9 de Março de 1840, passa a ter o titulo de Cidade da Campanha ( lei mineira n. 163, parágrafo 2 do Art. 1 da citada data ).
Antecedentes históricos do nome Lambari
Toda a área das terras campanhenses situadas às margens do rio Lambari, era chamada de Lambari, compreendendo inclusive o território do atual município de Jesuania.
O povoamento da região tem início em 1743, ( como veremos depois ) mas, um relato numa carta datada de 04 de outubro de 1737 já dava conta ao governador da Capitania de Minas Gerais da existência de uma estrada na mata que levava às margens dório Lambari de “copiosa abundância de peixe grosso e miúdo, de admirável sabor e gosto por ser todo de pedra o leito do rio”. O designativo Araberi – peixe miúdo, sardinha na língua tupi, gerou o topônimo Lambari, nome pelo qual passaram a ser chamadas as terras próximas àquele rio. Aquela carta teria sido a primeira referência histórica de Lambari.
Aspectos da Colonização de Lambari
Após a carta de Cipriano José da Rocha dando conta do descobrimento da Campanha ao Governador da Capitania de Minas Gerais, D. Martinho de Mendonça de Pina e Proença e já citando as virtudes do rio Lambari, surge uma segunda referência histórica em 1743, a 08 de fevereiro, numa carta de José Rodrigues da Fonseca, dirigida a Francisco de Mendonça Essa, e enviada de Lambari, das margens do tal rio consignando-se portanto, num dos primeiros habitantes de suas margens, podendo-se dizer que seu povoamento também começava nesta época .
Em 1780, revelou-se o descobrimento de uma fonte de “ Água Santa “ na propriedade de Antonio de Araújo Dantas, pelos lados do rio Lambari, nascida em função de seus efeitos medicinais, registrado no Anuário da Campanha na sua 8 edição, pelo Dr.Benício Chaves.
A Lenda
“As terras em que hoje se desdobra a cidade de Lambari, eram portanto, outrora de propriedade Antonio de Araújo Dantas “.É importante falar agora da lenda, tão forte que chega a embaçar o brilho da verdadeira historia da cidade
Eis a lenda:
“Era uma vez um fazendeiro rico da cidade de passos, que se encontrava em Campanha acompanhado de sua filha que submetia-se a tratamento medico.
Constam que tudo aconteceu por volta do ano de mil setecentos e oitenta ( 1780 ), morava nas proximidades da cidade de Campanha, Antonio de Araújo Dantas, negro cativo que em suas caminhadas fez uma incrível descoberta de uma fonte de águas milagrosas. Cecília, a filha do fazendeiro Antonio Alves Trancoso, continuava sofrendo por uma corrosível doença. Sua beleza parecia predestinada à destruição total. Antonio Araújo Dantas, o qual estando certa vez a conversar com um moço de nome Tancredo, em uma venda de beira de estrada, revelou a este a existência de águas curativas, que existiam atrás da serra, estas já experimentadas por outros doentes, proporcionara curas admiráveis. Falando com tanto entusiasmo quando se referia às “águas santas” que acabou por convencer a Tancredo de levar a noticia aos pais de Cecília. Tancredo, o noivo, não se conformava com a situação em que encontrava”Cecília”, pois ele acompanhara a fuga lenta, contínua do rosado de suas faces. Seus lábios não tinham a sedução de que se envaidecia a bela mineirinha. Tancredo acompanhara a família da sua noiva em viagem à Campanha, e na conversa com Antonio de Araújo Dantas, demonstrou grande interesse na sugestão de que a moça fosse levada a fonte de águas milagrosas, já experimentada por pessoas que eram doentes e que foram curadas. Tancredo à caminho repetindo a si mesmo as palavras do Antonio, sobre as águas que eram esquisitamente estranhas....cheias de bolhas.
Ao estar convencido do valor das águas santas situadas lá para as bandas do Lambari, Tancredo cheio de esperanças pôs-se a contar com voz animada e convincente, a que soubera das águas santas apontadas pelo Antonio. Depois de relutar muito, acabou cedendo e decidiu a viagem para Lambari, para conhecer às águas santas. Dias depois, lá estava a família de Antonio Alves Trancoso e o jovem Tancredo levando a jovem doente. Servindo-lhes de guia, Antonio de Araújo Dantas os acompanhara na viagem. Chegando ao local encontraram uma mata verdejante a cobrir os morros com um caminho estreito que conduzia à fonte. Apenas algumas clareiras pela mata. E numa dessas clareiras se encontrava aquela que servia de uma breve hospedagem perto da fonte. Tudo tal qual descrevera Antonio A Dantas. Cecília passa a fazer o seu tratamento, tomando a água milagrosa, três vezes ao dia. Passaram-se os primeiros dias cheios de esperanças e ansiedades. Depois de algum tempo alguma coisa mudou àquelas pessoas em relação ao lugar. Seria a bela selvagem natureza com seus encantos e fenômenos que ajudava a se tornar menos monótonas as horas ali passadas. Cecília ao mostrar-se mais ativa, mais interessada pela natureza, a correr pela mata, colhendo flores, em sua face e lábios mostrava-se a recuperação de sua saúde e felicidade. A moça bebera religiosamente da água santa como lhe indicara Antonio A Dantas, termina a cura. Cecília restabelecida, mostra-se forte, alegre e sadia. O milagre esperado se cumprira. Cecília e Tancredo ajoelhados diante da fonte fazem preces de gratidão á virgem. Os jovens não dando por satisfeitos apenas as longas preces, acharam que algo de mais duradouro deveriam fazer para demonstrar a grandeza do bem recebido. Pediram ao generoso pai que construísse uma capela naquele local onde seria lembrada e adorada a mãe santíssima. O senhor Antonio Alves Trancoso sentiu-se feliz e mandou construir a capela em louvor à mãe de todo bem que ali seria adorada “ Nossa Senhora da Saúde “. Ajoelhados aos pés do altar de Nossa senhora da saúde, Cecília e Tancredo receberam as bênçãos nupciais.Tudo acabara como os noivos desejaram, quando fizeram suas preces ajoelhados perto da fonte das águas santas, rogando a mãe santíssima que debelasse os males que afligiam Cecília.....Nada mais justo do que o reconhecimento do valor das águas santas. Em torno da fonte, onde Cecília e Tancredo renasceram para a vida, onde os jovens se solidificaram e cumpriram os anseios de um grande amor.-Surge um povoado.
Um povoado que nasce...cresce...multiplica-se...empurra para longe a verde mata...cobre as elevações de casas.
Um povoado que chega-se a uma distinta estância de águas minerais, que se chamou das Águas Virtuosas da Campanha e depois, Lambari. Eis a lenda, obrigatória e constante de todos os livros de historia da cidade. Apenas uma lenda...Pois, Antonio A. Dantas era... um rico fazendeiro: Passos ainda não existia em 1780.
A Evolução do Povoado
Ao ser descoberta em 1780, a primeira fonte de água mineral de Lambari, registrava-se um acontecimento significativo pois todo o território nacional só existiam duas fontes hidrominerais, a de Cipó, na Bahia, descoberta em 1730 e a de Caldas Novas em Goiás, descoberta em 1737. A cidade de Águas Virtuosas da Campanha já desde 1743 alguns moradores conforme nos informa o Anuário da Campanha a este deve ser considerado o marco do povoamento, que se estendeu, principalmente em torno das fontes que vieram a ser descobertas, a começar daquela já citada e localizada nas terras de Antonio de Araújo Dantas, conhecida como fazenda “ trás da serra “, e depois fazenda da Água Virtuosa. Desde essa época começou a indicação do Fiscal das Águas pela Câmara Municipal da Campanha que tinha a função , de administrar o povoado, arrecadar multas, informar o andamento de obras e o numero de visitantes ao local. Tal procedimento se estendeu ate que viesse a surgir o município, muito mais tarde... O nome Água Virtuosa passou a ser usado em documentos oficiosos por volta de 1801 para assentamentos religiosos, conforme documentos do Livro de Óbitos da Matriz da Campanha ou no já citado Anuário, nas datas. Como exemplo, uma carta de Antonio Borges da Costa dirigida ao Governador Manoel Ferreira da Costa Neves, começava assim:
“ 11 de outubro de 1801, Distrito de Trás da Serra da Água Virtuosa...” Em 1850, a povoação das Águas Virtuosas da Campanha foi elevada à Paróquia com esta denominação e com verba destinada aconstrução da Matriz que traria para o local atual a sede da povoação que até então se situava junto à Capela de Lambari ( atual Jesuania ). A região do Lambari ( o rio ) tinha então duas freguesias pertencentes à Campanha, a das Aguas Virtuosas e a do Bom Jesus do Lambari ( atual Jesuania ) com territórios próprios, onde se erguiam os dois municípios . Em 1858, a 14 de maio, por não ver concluída a Matriz, o presidente da província de Minas Gerais ( Dr. Carlos Carneiro de Campos ) assina um decreto transferindo novamente a sede da freguesia das Águas Virtuosas para a Freguesia do Lambari. Tal fato, não afetou o desenvolvimento da povoação do Lambari que florescia e que, no ano seguinte, tornar-se-ia Distrito de Paz, a 27 de junho de 1859. Um grande marco histórico .A década de 1860 trouxe alguns melhoramentos que incluíram a retificação do rio Lambari e a visita do Conde D'EU e a Princesa Isabel e o Visconde de Lages ( agosto de 1868 ) que ficaram cerca de dois meses hospedados no balneário, recém-construido, sempre sob os auspícios da Campanha. Pelos lados de cá, apenas o Fiscal das Águas Virtuosas era o administrador. Lambari, por essa época já começa a ter projeção nacional, visto ser um local de repouso e descanso indicado por médicos e também por situar-se próximo a um centro administrativo ( Campanha ) e na rota do ouro extraído nas Gerais.
A Primeira análise das águas ( 1872 )
Na década de 1870, já se podia usufruir das obras de retificação do rio Mumbuca redução de áreas alagáveis no centro do povoado e, entre elas também a recuperação ou a construção de estradas realizadas na década anterior. Havia então boas estradas na freguesia de São Gonçalo do Rio Verde e um caminho para a freguesia de Santa Catarina ( atual Natercia ) passando pelas fazendas localizadas em São Simão, Água Limpa, São Bartolomeu e Três Barras.
O povoado prosperava. Além das casas residenciais surgiam estabelecimentos comerciais, armazéns de secos e molhados e oficinas. Foi então que, a 11 de junho de 1870, a câmara municipal da Campanha autorizou uma despesa quinzenal de 500 mil réis para a construção de uma estrada que partindo das Águas do Lambary atingisse Caldas, passando, lógico por Campanha.
Em 1872, foi formada uma comissão para analisar e fornecer um laudo sobre as fontes de água mineral existentes. Na ocasião, eram duas as nascentes que formavam a fonte gasosa, a fonte Paulinea e a fonte Sulfúrea ou Maria. Nesse mesmo ano, era instituído o serviço de vacinação, tarefa que era de competência do comissário vacinador paroquial e que passava a ser fiscal das águas...
Na ocasião, o fiscal nomeado era Antonio Joaquim do Nascimento, que deveria obedecer o regulamento de vacinação instituído na década anterior, a 17 de agosto de 1864, que normatizava o serviço de vacinação do Império através do decreto n. 464. No procedimento de vacinação da época era usada a linfa dessecada. A 07 de fevereiro de 1874 foi nomeado para fiscal agente das águas Daniel Antonio Xavier, nomeação feita agora pela Diretoria de Obras Publicas da Província, que vinha acompanhando o progresso da povoação das Águas Virtuosas. Começava a construção de uma fabrica de botijas por Eulâmpio César Romagnolli, a quem foi doado uma apreciável área de terreno para esse fim.
A igreja ainda não havia sido construída por esta época, mas já se falava da importante povoação que já contava com 114 casas e cerca de 2.823 habitantes com uma diversificada gama de ocupações. Eram negociantes de fazendas, de molhados e gêneros da terra, ferradores e ferreiros, rancheiros, alfaiates, caldeireiros, carpinteiros, oleiros, fabriqueiros, cigarreiros, celeiros.Já havia uma botica, um dentista, uma casa de bilhares, uma parteira, duas “aulas” de ensino primário, uma publica e outra particular e até um delegado de instrução pública. Produziam-se 7.000 arrobas de fumo e a plantação de café já se desenvolvia na região.
Três acontecimentos aceleram o progresso
Mas foi na década de 1880 que um surto de progresso bem maior fez-se perceber, devido a três fatores:
O primeiro – a fixação de residência de um medico campanhense recém-formado, o Dr. Eustáquio Garção Stockler. O seu interesse de exploração das águas com fins medicinais fez com que se recuperasse o balneário ( inaugurado em 1872 ) que já precisava de reformas, que se obtivesse licença para exportação das águas cuja autorização veio através da lei n.3561 de 25 de julho de 1888. A empresa exploradora e exportadora das águas foi fundada pelo dito médico com um sócio, o Dr. Bandeira de Mello.
O segundo – fator de desenvolvimento da povoação nessa década foi a presença da estrada de ferro Minas – Rio até Três Corações do Rio Verde, cuja primeira locomotiva ali chegou em 18 de outubro de 1883. A ferrovia incrementou o progresso da região, concorrendo com maior freqüência das águas, apesar de estar a cerca de 50Km da estação mais próxima.
O terceiro – acontecimento foi a chegada e fixação de dezenas de famílias italianas na localidade, oriundas de Campânia, província de Basilicata, entre Nápoles e Calábria, que trouxeram um aumento de atividades do comércio no povoado. Enquanto era concedidos lotes aos novos habitantes e abriam-se ruas, construíam-se casas, aumentava-se o prestigio político do Dr. Eustáquio Garção Stockler, que em 1887 já tomava assento na Câmara de Vereadores do Município da Campanha.
A política ajudando o crescimento. “ A Peleja”
Dois vultos mineiros vieram em apoio ao trabalho do Dr. Eustáquio na Câmara de Campanha: Dr. Américo Werneck, vindo residir a 1889 em sua Fazenda dos Pinheiros na Nova Baden, e o Dr. João Bráulio Moinhos de Vilhena Junior. O primeiro jornalista e engenheiro de grande influencia política e propagandista da Republica, alem de escritor. O segundo, medico da tradicional família campanhense, que mudou-se em 1890 para Águas Virtuosas, após ter clinicado na capital federal, o Rio de Janeiro.
O grupo do Dr. Eustáquio se fortificou e conseguiu elege-lo e ao Dr. João Bráulio deputados ambos com 73 votos cada nas eleições de 25 de janeiro de 1891. No mesmo sufrágio o Dr. Américo Werneck recebia 73 votos para senador estadual. Os esforços empreendidos pelo grupo para a criação do Distrito de Paz, desta vez, das Águas Virtuosas coroaram de êxito naquele mesmo ano, a 16 de setembro de 1891, portanto, já eram escolhidos os Conselheiros Distritais das Águas Virtuosas, Vereadores e Juizes de Paz. Durante toda a década de 1890 o distrito gozou de renome na região sul mineira.
O Dr. João Bráulio se reelegera, o Dr. Werneck tornara-se Secretario da Agricultura. O grupo político mantinha-se coeso e criou um jornal “A Peleja” que, dirigido pelo Dr. Eustáquio, viria a se tornar o arauto político mais importante de toda a região. Contava com colaboradores e colunistas como: Américo Werneck, Ferreira Brandão , João Brandão , João Luis Alves, considerados os melhores da época. O jornal teve dessa forma uma importância destacada na formação da opinião política e na formação de lideranças que viriam beneficiar o crescimento do distrito. Enquanto o Dr. Eustaquio conseguia a intendência da Campanha
a aprovação de um projeto de saneamento e embelezamento da vargem ( região situada entre o rio Mumbuca e a antiga
rua Direita, ou seja, o centro atual de Lambari ), novas famílias de italianos e também franceses se estabeleciam no local, trazendo um aumento do comercio de quinquilharias e pequenos objetos de fantasia, já trazendo “Lembrança de Lambari”. Eram as iniciativas particulares trazendo o progresso. Em 1894 um galpão foi construído pela Companhia União Industrial para o engarrafamento da água e o reaparelhamento do balneário. A 24 de março deste ano de 1894 era inaugurada a estação ferroviária, com a chegada do primeiro trem de passageiros da Estrada de Ferro Muzambinho. Desde 1884 já funcionava o Hotel Melo. Agora, dez anos depois, começaram a surgir outros hotéis e pensões.Entre eles, Hotel Central, Hotel Bibiano, Hotel dos Estados, Hotel Brasil, Hotel União, Hotel Lambari, Hotel Mineiro, Hotel Muzambinho. Em 1898, funcionando em prédio adequado no que viria a ser o futuro Hotel América, foi criado o Instituto Cirúrgico e Ginecológico, pelos médicos Dr. Duarte Peres Rego Monteiro e Dr. João Bráulio Junior, o primeiro hospital de Lambari.
Tal desenvolvimento se deveu à autonomia conquistada com a criação do Distrito de Paz, quando os problemas passaram a ser resolvidos pelos membros do conselho distrital na própria localidade e, como foi dito, pela atuação da iniciativa particular. Acrescente-se a força de “pessoas citadas acima, que tinham uma grande influencia política nas altas esferas do poder da época”.
Uma Nova Província
Em 1887, num projeto de lei do senador do império Dr. Joaquim Floriano Godoy, foi criada a província do Rio Sapucay que passou a ter a representação política de 8 deputados e 4 senadores na assembléia geral legislativa e 32 membros na assembléia da província. A nova província tinha 8 distritos e no projeto apresentado e aprovado a província tinha 8 distritos. Do sexto distrito contavam: Santo Antonio do Vale da Piedade da Campanha,Bom Jesus de Lambari, Nossa Senhora da Saúde das Águas Virtuosas, Três Corações de Jesus, Maria José do Rio Verde, Espírito Santo da Mutuca,São João Batista do Douradinho, São Gonçalo do Sapucahy, Sant'Anna do Sapucahy e Santa Isabel. A capital da província recém-criada era Taubaté. Isto quer dizer que naquele período áureo de desenvolvimento de Lambari, conforme vimos anteriormente, período em que a influencia de Lambari sobrepujava ate as regras impostas por Campanha, veio uma mudança administrativa, que veio a mudar o eixo das decisões administrativas. Com ela jogou-se para Taubaté o centro das decisões do clero, saindo de Campanha para o Vale do Paraíba, o que veio favorecer o fortalecimento daquela região, a criação dos municípios de Aparecida e São José dos Campos. Em compensação, passamos a ter um respaldo maior do Estado em razão da influencia de nossos políticos mais ligados á capital.
Um novo Município
Antes da instalação de um município é formada a sua câmara de vereadores. Para a instalação da Câmara Municipal das Águas Virtuosas aconteceram 5 sessões preparatórias, de 23 a 27 de dezembro de 1901, presididas por Bibiano José da Silva.
A primeira sessão ordinária da Câmara, coincidiu com a instalação do Município das Águas Virtuosas no dia 1 de janeiro de 1902. Nesse dia foi feita a eleição para presidente da Câmara, que veio a ser João de Almeida Lisboa Junior. Elegeu-se para vice-presidente da câmara, Gabriel Romão Carneiro. Participaram dela, além dos citados presidente e vice eleitos, Bibiano José da Silva, Martinho Vaz Tostes, Egydio de Lorenzo, Joaquim Manoel de Melo, Deusdedit Vieira, Francisco Antonio Correia e Oscar Pires Pinheiro.
A sessão foi feita com muita pompa e contou com a presença do juiz de Direito da Comarca, Dr. André Martins Andrade, do promotor de justiça Dr. Gabriel Valadão. Após uma homenagem feita ao então Presidente de Minas Gerais, Dr. Francisco Sylviano de Almeida Brandão, discursaram diversas personalidades entre elas, o publicista e político Dr. Américo Werneck. Na mesma sessão foi eleito o primeiro Agente Executivo das Águas, Dr. Garção Stockler, cargo que veio a substituir aquele de Agente Fiscal das Águas, ate aquela data, indicado pela Câmara da Campanha. A posse do Dr. Garção Stockler deu-se no dia 09 de janeiro de 1902, quando foram criadas as comissões de Finanças, Obras Publicas e de Redação. Tanto o regimento interno da Câmara, quanto as Leis Municipais foram provisoriamente adotadas de Campanha com pequenas alterações de seus textos e aprovadas pela nova Câmara. A instalação do município por Lei Estadual n.663, de 18 de setembro de 1915, só veio a ser promulgada em 15 de junho de 1917.
Futuramente, Águas Virtuosas passaria a Comarca, em 24 de janeiro de 1925, compreendendo, além de Bom Jesus de Lambari, também os municípios de Cambuquira e Conceição do Rio Verde.
O primeiro Prefeito nomeado
Américo Werneck, considerado o artífice de Lambari, nasceu a 19 de março de 1855, em Bomposta no Estado do Rio. Formou-se em engenharia em 1877 pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Foi prefeito interino de Belo Horizonte e Secretario da Agricultura no governo de Sylviano Brandão. Além de engenheiro foi publicista, escrevendo vários romances, entre eles, “Morena”, “Graciema e Juraci”, “Judith e Lucrecia”.
Foram 22 os prefeitos nomeados pelo governo do Estado ate 1947, sendo Américo Werneck o primeiro deles, em 12 de maio de 1909, através do Decreto de Nomeação do então Governador do Estado, Dr, Wenceslau Braz Pereira Gomes – Decreto n.2528.(Já o primeiro prefeito eleito em 1947, Dr. Helio Monteiro de Toledo Salles havia sido indicado naquele mesmo ano, vindo a ser escolhido também em sufrágio direto. Novamente, no período da ditadura militar passamos a ter novamente as nomeações. E, finalmente, com Renato Nascimento, passamos a exercer definitivamente o direito do voto).
Político eminente, jornalista, Américo Werneck foi um grande visionário. Transformou a terra que veio administrar, abrindo avenidas largas, construindo o complexo do Cassino, Parque Wenceslau, Lago Guanabara e suas gôndolas, o Farol. Trouxe e executou a rede elétrica da cidade, uma fabrica de gelo e executou o serviço de abastecimento de água. ( obras que custaram 3.000.000 (três milhões de cruzeiros ) e que vieram a ser inauguradas pelo Presidente Marechal Hermes da Fonseca, em 22 de abril de 1911 ). Numa escritura publica de 13 de julho de 1912, passou a ser arrendatário da estância. Passados alguns anos Américo Werneck entra em litígio com o governo do Estado, o que trouxe sérios prejuízos para a cidade e que aconteceu em decorrência de divergências com Raul Noronha Sá (de Caxambu ) e também influente na Capital. Na defesa do Estado na referida briga jurídica estava Rui Barbosa. Durou alguns anos a demanda judicial que finalmente foi ganha por Rui Barbosa. Em 1927 o governo estadual assume a administração das águas. Desgostoso, Américo Werneck se afasta do cenário político, mas suas obras sempre o farão presente na memória dos lambarienses....